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[Antígona] O emparedamento vivo em Antígona

Raquel Zichelle

Um tema que permeia a obra de Sófocles, Antígona, é o emparedamento das personagens. Este aparece de diversas formas: tanto um enclausuramento físico como invisível, abstrato. Há, também, na tragédia, o tema do sepultamento dos irmãos de Antígona, que nada mais é do que uma das possibilidades do emparedamento, mas não nos interessa na presente análise, por não causar o mesmo efeito permitido pelo sepultamento vivo, principalmente, de Antígona e Creonte.

A clausura de Antígona se dá de maneira física e abstrata. De forma concreta, Antígona recebeu, como punição por ter desobedecido ao Creonte, um sepulcro abobadado, um túmulo de pedras, num “lugar jamais pisado pelo homem”, como se refere o rei. Neste subterrâneo de pedras, deixada só e desprotegida, a jovem sucumbiria, privada de viver com os vivos. “Assim, sem amigos que me valham, vou – ó desgraçada: e viva, ainda! – para o túmulo”. Nesta fala de Antígona, fica evidente o sofrimento causado pela iminência do cerceamento permanente.

Abstratamente, podemos dizer que o emparedamento acontece por conta do destino ao qual as personagens estavam submetidas. As pedras que condenariam Antígona assumem no texto, além do sentido concreto, a metáfora do poder divino que impõe sobre o homem um destino, ao qual não lhe é permitido fugir. “É implacável a força do destino”, diz o coro. Antígona estava condenada às desgraças desde o nascimento, assim como todos da família. A fala de Antígona que abre a tragédia deixa bem claros os infortúnios: “Irmã do meu sangue, Ismene querida: tu, que conheces as desgraças que afligem a casa de Édipo, sabes de alguma que Zeus não tenha feito cair sobre ela, depois do nosso nascimento? Não!”.  

Da mesma forma, Creonte fora submetido ao joguete de um destino imposto pelos deuses. Não havia saída, embora o rei orgulhoso tentasse ser superior aos deuses e desafiá-los, o destino de Creonte já havia sido traçado. Mesmo tomando consciência da sua falta de prudência e retrocedendo a sua decisão, nada mais poderia ser feito. Antígona, seu filho Hêmon e sua esposa Eurídice morreram e ao rei restou aceitar seu destino, emparedado. “Sobre a minha cabeça desabou um destino cruel que ninguém pode alterar”, encerra Creonte.

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